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Entre Fatos e Fantasia: o Brasil na Visão de Denis Rosenfield

01 de outubro de 2026

Entrevistado(s): Denis Rosenfield

Um bate-papo sobre o que realmente importa 

Há quatro décadas no debate público brasileiro, o filósofo Denis Rosenfield segue uma regra que aplica tanto a um artigo de jornal quanto a uma reunião de conselho: separar fato de narrativa. Nesta conversa com Eden Paz e Ari Pellicioli, sócios-fundadores do Grupo ConsulPaz, para a 43ª edição da revista Conteúdo Compartilhado, ele foi direto sobre os temas que mais preocupam quem toma decisões de negócio no Brasil hoje: a tensão entre os Poderes da República, o desenho final da Reforma Tributária e o custo, para as empresas, de operar em um país onde, em suas palavras, "a realidade já vem mascarada". 

Gaúcho de Porto Alegre, Rosenfield construiu uma trajetória pouco convencional: formação em filosofia na Universidade Nacional Autônoma do México, doutorado de Estado pela Universidade de Paris I (Panthéon-Sorbonne) com tese sobre política e liberdade em Hegel, mais de 30 anos como professor titular de filosofia na UFRGS, coluna quinzenal na Folha de São Paulo há mais de 20 anos e passagens como articulista do Estadão e de O Globo. Também foi conselheiro próximo do ex-presidente Michel Temer e assessorou por 12 anos uma das maiores confederações empresariais do país — sempre, segundo conta, dizendo "na cara" o que pensava, para o bem e para o mal. 

Nesta entrevista, ele explica por que enxerga o Brasil "sem equilíbrio entre os Poderes", como isso se traduz em risco para investidores, sua leitura sobre a Reforma Tributária e por que, na sua visão, empresário não deveria contratar consultor "para dizer o que ele quer ouvir". Acompanhe. 

"Não tem nada de comum": uma trajetória fora do script 

A conversa começou pela própria biografia de Rosenfield — e ele não hesitou em confirmar: "Eu devo reconhecer, não tem nada de comum." Formado numa época de expurgos na UFRGS, quando professores com os quais teria afinidade haviam deixado a universidade, ele decidiu fazer a graduação no México, com apoio do pai. Ao final do curso, seguiu direto para Paris — ainda jovem, aos 26 anos — num momento em que a França, como lembra citando o historiador Tony Judt, era "o centro do mundo do ponto de vista intelectual". 

O idioma não foi obstáculo: filho de família judia — 75% asquenazi e 25% sefaradi de origem turca —, Rosenfield cresceu ouvindo francês em casa. "Eu tinha duas alternativas: ou eu falava francês, ou não entendia o que minha mãe, meus tios e minha avó falavam. Falei por obrigação", recorda, chamando-a de "uma excelente obrigação". 

Na Sorbonne, um episódio marcou sua formação. Ao se apresentar a um dos grandes professores da instituição para propor uma tese sobre Hegel, ouviu uma pergunta direta: ele sabia alemão? A resposta foi não — e a orientação, igualmente direta: "Então vá primeiro para a Alemanha." Rosenfield foi, aprendeu o idioma com bolsa do Instituto Goethe e, de volta a Paris, recebeu outra recomendação que definiria cinco anos de sua vida: ir à Biblioteca Nacional e pesquisar por conta própria, sem o acompanhamento tutorial do modelo americano. "Eu peguei à risca", diz. O resultado foi o doutorado de Estado — o grau mais alto da universidade francesa, raramente concedido a estrangeiros —, publicado na França, na Espanha e no Brasil. 

De volta ao país, foi contratado quase imediatamente pela UFRGS. Recusou convites para lecionar em Campinas e para retornar a Paris, e só deixou a vida acadêmica quando decidiu se dedicar à consultoria para empresas e sindicatos — quando, em suas palavras, "o salário de professor universitário não cabia" nas suas atividades. 

A franqueza como método — e como risco calculado 

Se há um traço que Rosenfield reivindica como marca pessoal, é a franqueza. "Eu sou homem muito franco. Eu falo diretamente e não tenho nenhuma dificuldade de fazê-lo", afirma. Foi essa característica, conta, que o aproximou do ex-presidente Michel Temer, então vice-presidente, e consolidou uma amizade de conversas semanais: "Ele me disse: 'Denis, você chegava e me dizia na cara que você não estava de acordo. Eu precisava de alguém que me dissesse na cara.'" 

A mesma postura, reconhece, teve custos. Como assessor de uma grande confederação nacional por 12 anos, foi mantido por um novo presidente justamente por não fazer "beija-mão" — mas dispensado, anos depois, ao repetir a mesma franqueza com esse mesmo presidente. "O pior é que eu tinha razão. Depois reconheceram que eu tinha razão, mas o estrago já tinha sido feito", resume, atribuindo o desfecho ao amor-próprio de quem é confrontado. 

"Eu não entendo por que as pessoas contratam alguém para dizer o que eles pensam. Isso é dinheiro posto fora — basta olhar no espelho", provoca, ao comentar por que valoriza consultores e conselheiros dispostos a discordar abertamente de quem os contrata. 

Fatos versus narrativa: o diagnóstico da crise institucional 

Questionado por Ari Pellicioli sobre como interpretar o momento político brasileiro — entre dados de pesquisa e a narrativa construída nas redes sociais —, Rosenfield foi categórico: a análise deve partir sempre dos fatos. "O problema é que nós estamos vivendo numa época onde a realidade já vem mascarada, fantasiosamente travestida pela narrativa das mídias sociais", afirmou, citando uma frase de Umberto Eco sobre a democratização da opinião nas redes: "Estamos entrando no reino dos imbecis." 

Na visão do filósofo, o Supremo Tribunal Federal (STF) vive hoje uma crise de credibilidade que ele descreve por meio de uma metáfora: "Tem um terremoto no Brasil. Os fatos são avassaladores. O sismógrafo não funcionou bem, mas ninguém mais está preocupado com o sismógrafo — está preocupado com o terremoto e suas consequências." Para ele, questionamentos processuais têm sido usados para desviar a atenção de fatos substantivos investigados pela Polícia Federal envolvendo ministros da Corte. 

Provocado por Eden Paz sobre um paralelo com o caso do juízo de Curitiba na Operação Lava Jato — quando uma questão processual (a competência do foro) anulou processos —, Rosenfield reconheceu o risco de repetição, mas traçou cenários específicos para o caso do ministro André Mendonça: uma possível solução intermediária (como ocorreu com o ex-ministro Toffoli), com desgaste institucional para o próprio Supremo; ou o avanço de um processo de impeachment no Senado, caso a composição da Casa mude na eleição da presidência em fevereiro. "No momento em que o impeachment for ao plenário, será aprovado. O que vai acontecer? Crise institucional grave, decisão do Senado contra a Suprema Corte", projetou. 

Rosenfield citou ainda uma declaração atribuída ao ministro Gilmar Mendes — de que ordens "ilegais e manadas" do Supremo não deveriam ser seguidas por delegados da Polícia Federal — como um precedente perigoso de "desobediência institucional", por transferir a decisão de cumprir ou não uma ordem para agentes subordinados na hierarquia do Estado. 

O preço da instabilidade institucional para quem faz negócios 

Para Eden Paz, o pano de fundo institucional já aparece nos números do dia a dia empresarial — mais falências, mais concordatas, crédito mais caro. Rosenfield concordou com o diagnóstico e apontou a raiz do problema: "Hoje a economia se entrelaçou com a política. Essa lógica é aterradora — ela vai explodir ano que vem." Para ele, o endividamento público resulta em juros e inflação mais altos, com efeito direto sobre o crédito e a demanda por serviços — "e a conta, queira o presidente Lula ou não, deverá ser paga". 

Ao ser questionado sobre o efeito desse cenário na atração de investimento estrangeiro, Rosenfield relativizou: o risco institucional é real, mas o efeito varia conforme o setor. "A crise nacional está dada, mas no teu ramo de negócio ela pode não afetar. Você tem que saber discriminar o nicho da empresa", explicou, citando um caso recente em que orientou uma companhia internacional a avaliar separadamente o risco político geral e o risco específico do seu setor — se é indústria de defesa, agronegócio ou siderurgia, por exemplo. Na sua avaliação, apesar da turbulência política, "a economia brasileira é pujante, apesar dos seus problemas [...] a sociedade brasileira é melhor que a sua elite política." 

O QUE OS NÚMEROS SINALIZAM 

Rosenfield fez referência a dados oficiais de falências, recuperações judiciais e fechamento de empresas como evidência do impacto do custo de crédito elevado sobre companhias de pequeno e médio porte — tendência associada, no debate econômico, ao ciclo de juros altos e à insegurança institucional. Para a versão final publicada, recomenda-se complementar este ponto com os números mais recentes de fontes primárias como Serasa Experian, Banco Central e Receita Federal, garantindo precisão e atualidade dos dados citados. 

Reforma Tributária: simplificação real ou aumento de arrecadação? 

Ari Pellicioli trouxe à mesa o tema que hoje domina o planejamento de qualquer empresa brasileira: a Reforma Tributária. A pergunta era direta — a reforma sobrevive à regulamentação, ou perde força "exceção por exceção"? Rosenfield fez uma distinção que considera central: a reforma tem, sim, um componente de simplificação do sistema tributário, mas foi conduzida, na sua leitura, com o objetivo prioritário de aumentar a arrecadação do governo federal. "Aquele discurso de que não haverá aumento de carga tributária é uma falácia completa — não corresponde à realidade", afirmou. 

Um dos pontos de maior insegurança apontados por ele é o Imposto Seletivo, cuja alíquota — aplicável a produtos como cigarro, açúcar, sal, álcool e fertilizantes — ainda não havia sido definida na época da entrevista. Isso gera, segundo Rosenfield, um problema prático concreto para pequenas empresas: contribuintes do Simples Nacional precisam decidir sua opção tributária antes de saber qual será a alíquota final aplicada a sua atividade. "Olha o absurdo em que a gente vive: eu vou ter que escolher algo que eu não sei ainda como vai ser", resumiu Eden Paz durante a conversa — provocação com a qual Rosenfield concordou, classificando o cenário como "uma anarquia tributária que prejudica as empresas". 

Sobre o setor do agronegócio, especificamente, Rosenfield defendeu que o uso mais intensivo de fertilizantes no Brasil, em comparação à Europa, decorre de fatores climáticos — o país tem duas ou três safras por ano, contra uma na Europa — e não de um suposto uso excessivo ou irresponsável, argumento que, na sua visão, tem sido usado para justificar tributação mais pesada sobre insumos agrícolas. 

COMO APLICAR NA PRÁTICA — PARA EMPRESAS EM MEIO À TRANSIÇÃO TRIBUTÁRIA 

  • • Mapeie o enquadramento tributário atual da empresa e simule cenários com diferentes alíquotas possíveis do Imposto Seletivo e do novo modelo de IVA dual. 

  • • Avalie o momento de migração de regime (Simples Nacional x regime híbrido) com apoio de um especialista tributário — evite decisões apressadas diante de alíquotas ainda não consolidadas. 

  • • Separe risco político geral de risco setorial específico antes de decisões de investimento ou expansão — nem todo cenário institucional afeta igualmente todos os setores. 

  • • Mantenha um canal de acompanhamento regulatório ativo (jurídico ou consultoria especializada) diante da regulamentação ainda em curso da Reforma Tributária. 

  • • Evite decisões estruturais de longo prazo baseadas apenas em notícias de repercussão — volte sempre à fonte primária (texto da lei, nota técnica, dado oficial). 

O papel do empresário diante da política 

Diante da fragmentação política — Rosenfield citou o dado de 37% de eleitores independentes no Rio Grande do Sul —, Eden Paz perguntou como essa indefinição se reflete no comportamento dos empresários. Para o filósofo, a resposta é clara: empresas e entidades de classe não deveriam se manifestar publicamente em nome de candidaturas, pois seu papel é buscar o interesse legítimo do negócio e negociar com quem for eleito, seja qual for o resultado. "Isso é um dado sobre o qual o Brasil está se equivocando — termina prejudicando o setor", avaliou. 

O engajamento adequado, na sua visão, é outro: financiar, como pessoa física, candidatos alinhados a sua visão de mundo ou aos interesses do negócio. "Com um CPF, ele dá dinheiro para quem quiser. Aliás, acho que dá pouco — deveriam se engajar mais", provocou, acrescentando uma crítica direta à falta de participação: "Talvez nós tenhamos hoje a classe política que merecemos, porque não há engajamento." 

Da frase de efeito ao conteúdo: o desafio da comunicação corporativa 

Retomando uma reflexão do próprio Rosenfield sobre como entrevistas de 40 ou 50 minutos costumam ser reduzidas a uma única frase nas redes sociais, Eden Paz trouxe o paralelo para dentro das empresas: como evitar que um processo inteiro de transformação organizacional seja resumido a um recorte que não representa o trabalho? Para o filósofo, o fenômeno das redes sociais — que privilegia frases curtas e de efeito — dificilmente será revertido no curto prazo. Mas há uma saída na prática presencial: "A confiança, o olhar nos olhos, os gestos, a intervenção no momento certo fazem toda a diferença. É aí que você sai do like para uma conversa." 

Como recomendação prática para comunicação corporativa e institucional, ele sugere uma fórmula testada em décadas de consultoria: produzir documentos completos, mas sempre acompanhados de um sumário executivo de até duas páginas. "Faz um documento de 50 páginas que alguém vai ler? Esquece. Dá as 50 páginas e o sumário executivo dizendo: se quiser desenvolver algum ponto, vá à página X", explicou, associando a recomendação a uma preocupação mais ampla com a perda do hábito de leitura na sociedade contemporânea.

 

GLOSSÁRIO 

Imposto Seletivo — novo tributo federal previsto na Reforma Tributária, incidente sobre produtos considerados prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente (como cigarro, bebidas alcoólicas e, em debate, fertilizantes); sua alíquota ainda estava em definição no momento da entrevista. 

Simples Nacional — regime tributário simplificado voltado a micro e pequenas empresas, que unifica o recolhimento de tributos federais, estaduais e municipais em uma única guia. 

Impeachment — processo político-jurídico de afastamento de uma autoridade pública por infração a deveres do cargo; no caso de ministros do STF, é de competência do Senado Federal. 

Juiz natural — princípio constitucional segundo o qual toda pessoa deve ser julgada pelo juízo competente definido previamente em lei, e não escolhido posteriormente ao fato. 

Doutorado de Estado — antigo grau acadêmico francês, hoje extinto, considerado o mais alto título universitário do país, historicamente raro entre pesquisadores estrangeiros. 

O que precisa mudar no Brasil, segundo Rosenfield 

Ao ser convidado a apontar prioridades estruturais para o país nos próximos anos, Rosenfield citou dois eixos centrais. O primeiro é a retomada de princípios liberais na economia — responsabilidade fiscal e redução do papel do Estado em atividades que, na sua avaliação, geram prejuízo recorrente, citando os Correios como exemplo. "Não é possível continuarmos com essa irresponsabilidade fiscal, com esse aumento explosivo da dívida pública", afirmou, atribuindo o sucesso do primeiro governo Lula, em contraste com mandatos posteriores, à manutenção desses princípios herdados do governo Fernando Henrique Cardoso. 

O segundo eixo é o reequilíbrio entre os Poderes da República. Para Rosenfield, tanto o Judiciário quanto o Legislativo e o Executivo precisam atuar dentro de seus limites institucionais — "o Supremo tem que se conter; se não se conter, ele vai ser contido", disse, citando como exemplo concreto o desgaste sofrido pela Reforma Trabalhista de 2017, da qual afirma ter participado como um dos operadores técnicos, após decisões pontuais do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior do Trabalho terem, na sua avaliação, esvaziado partes da lei aprovada pelo Congresso. 

Fechamento: fatos primeiro, sempre 

Ao ser perguntado, na reta final da conversa, sobre uma previsão para os próximos capítulos da crise política brasileira, Rosenfield foi cauteloso: "No Brasil está ficando difícil prever alguma coisa — cada dia tem algo diferente." Ainda assim, reafirmou sua convicção central: sem mudanças no equilíbrio institucional, o país caminha para uma crise mais profunda. "Se algo não for feito, nós iremos para a crise institucional. Estou convencido disso." 

A mensagem final, no entanto, voltou ao ponto de partida da entrevista: a defesa do método sobre a opinião. Ao relatar o processo de pesquisa que resultou em seu livro mais recente, sobre a guerra na perspectiva filosófica, Rosenfield resumiu sua visão de mundo em uma frase que também serve de recado a qualquer empresário, gestor ou comunicador: "Não é só narrativa, é conteúdo, é pesquisa, é dado — é isso que faz a diferença. Não é uma opinião qualquer: é algo embasado e sólido." 

QUEM É DENIS ROSENFIELD 

Denis Rosenfield é filósofo, pensador contemporâneo, escritor e colunista. Formado em filosofia pela Universidade Nacional Autônoma do México, é doutor pela Universidade de Paris I (Panthéon-Sorbonne), com tese sobre política e liberdade em Hegel publicada em três idiomas. Foi professor titular de filosofia da UFRGS por mais de 30 anos e é pesquisador 1A do CNPq. Colunista da Folha de São Paulo há mais de 20 anos e ex-articulista do Estadão e de O Globo, dirige o Instituto de Pesquisa Rosenfield, onde publica análises periódicas sobre política, eleições e economia. Atua também como consultor para empresas e entidades empresariais. 

 

Confira o bate-papo completo com Denis Rosenfield no canal do YouTube e no podcast do Grupo ConsulPaz, disponíveis também através da versão digital desta 43ª edição da revista Conteúdo Compartilhado.