Reforma tributária: por que sua empresa pode parar de emitir notas se não fizer o dever de casa agora
01 de outubro de 2026
Entrevistado(s): Ângela Daltoé
A reforma tributária brasileira deixou de ser promessa distante: já está em vigor, convivendo com o sistema antigo enquanto muda regras praticamente todo mês. Foi sobre esse terreno movediço que Ari Pellicioli e Eden Paz, sócios da ConsulPaz, receberam Ângela Daltoé na mais recente entrevista da revista Conteúdo Compartilhado.
Gerente corporativa de custos e contabilidade tributária da Tramontina, com 42 anos de casa completados em setembro, Ângela lidera o projeto de reforma tributária da companhia e concilia a função com a docência universitária. Nesta conversa, ela reconstrói uma trajetória que começou aos 16 anos no varejo, na loja da Tramontina — quando nem sabia distinguir os produtos que vendia — até chegar a mesa onde hoje dialoga diretamente com os principais acionistas da empresa.
Em nossa entrevista Angela compartilha os impactos concretos da reforma: da tributação que migra da origem para o destino, dos mais de cem novos campos no XML da nota fiscal, passando pelo risco real de travar a operação de uma empresa por um simples erro de cadastro. "Se você não tiver tudo cem por cento certo, a nota não vai ser emitida", resume.
A disciplina que vem do "não sei, mas aprendo"
Ângela começou na Tramontina por acaso, aos 16 anos — a vaga era para a irmã, que preferiu trabalhar em outra loja. Foi parar no varejo da empresa, sem saber sequer o nome dos produtos que vendia. "Não sabia absolutamente nada, nem o que era uma baixela e um talher", relembra, aos risos. O que a diferenciou, segundo ela, foi a disposição de admitir o que não sabia: "Eu disse a verdade para ele: não conheço, não sei, mas estou aqui disposta a aprender. E foi isso que ele gostou de mim, porque eu fui sincera." Dali, passou pela área de cobrança, pelo preenchimento manual de boletins na área de TI e chegou à contabilidade — área que não era seu sonho original. Ângela queria ser música; canta e toca violão desde cedo. Foi o pai, também músico, quem a orientou: "Escolha uma profissão que você possa se sustentar. A música não sustenta." Ela optou por Ciências Contábeis.
O ponto de virada, conta, foi um período de apoio no arquivo morto da empresa. Em vez de apenas arquivar documentos, decidiu usá-los para aprender contabilidade na prática, conta a conta. "Peguei todos os documentos um a um e comecei a aprender contabilidade. Ali eu fui mergulhando e entendendo o mundo contábil", diz. "Meu mundo se abriu." A formação não parou mais: bacharel em Ciências Contábeis pela Unisinos, pós-graduação em Gestão de Pessoas, MBA em Controladoria, MBA em Gestão de Negócios pela Fundação Dom Cabral, MBA em Reforma Tributária e, atualmente, mestrado em Finanças, Governança e Gestão Financeira. Ângela também é professora de pós-graduação na Universidade de Caxias do Sul, nas áreas de gestão financeira, custos estratégicos e gestão tributária estratégica.
“Não sei, mas eu aprendo. Acho que esse é o segredo de tudo.”
Como destacou Ari na condução da entrevista, trata-se de uma trajetória pouco comum para as novas gerações, que talvez nem saibam o que é um "arquivo morto" com pastas a-z e formulários preenchidos à mão para a TI processar. Ângela credita boa parte do próprio raciocínio lógico à música — "quem toca violão ou vive no mundo da música aprende raciocínio lógico, e eu não tinha, aí eu tive que aprender" — e à decisão de montar equipes multidisciplinares ao longo da carreira, hoje reunindo contadores, advogados, um PMO e até um engenheiro. "Eu preciso entender de custos, eu sei custos, mas o engenheiro sabe de fábrica", explica. "É isso que traz riqueza para dentro da empresa."
Da origem ao destino: o tremor que a reforma provoca nos sistemas
Retomando a observação de Ari sobre o cronograma da reforma — em vigor desde janeiro, com implementação gradual até 2033 —, Ângela foi direta sobre o estágio atual: "Por enquanto não tem nada simplificado." Para ela, isso é esperado numa transformação desse porte, mas o volume de trabalho técnico surpreendeu até profissionais experientes. "Um dos grandes desafios hoje é conseguir, através das notas técnicas, trazer para a realidade todas as mudanças. Fui para vários treinamentos onde o pessoal não sabia nem onde baixar a nota técnica", relata.
O núcleo da mudança, segundo ela, está na lógica de tributação: em vez de recolher o imposto conforme a origem da mercadoria, o novo modelo tributa no destino — o que redesenha decisões de logística e até localização de fábricas e centros de distribuição. "Eu não vou olhar se a mercadoria está saindo do Rio Grande do Sul. Vou olhar lá na frente, quando entrar o IBS, o município. Muda tudo, e as alíquotas mudam", descreve. No campo técnico, o impacto é igualmente grande: são mais de cem novos campos a configurar no XML da nota fiscal eletrônica, envolvendo TI, fiscal e negócio em igual medida. "Fiscal e tecnologia têm que estar grudadinhos, eles não podem se desgrudar", resume Ângela, ao descrever a necessidade de alinhamento constante entre as áreas.
Expandindo essa ideia, ela chama atenção para empresas que, além da reforma, estão em processo de troca de sistema (por exemplo, migrando para SAP): nesses casos, é preciso manter dois ambientes funcionando em paralelo — o legado e o novo — até a transição se completar, o que dobra o esforço das equipes técnicas. "Quando a gente migra de sistema, a dor é maior ainda", afirma.
O crédito que só chega quando o fornecedor paga
Um dos pontos que mais chamou atenção na entrevista foi a mudança na apropriação de créditos tributários. No modelo atual da reforma, a empresa não credita o imposto no momento em que recebe a nota fiscal, mas somente quando o fornecedor efetivamente recolhe o tributo. "E se o fornecedor não pagar, eu tenho que pagar. Eu tenho um efeito de fluxo de caixa muito grande", alerta Ângela. Isso obriga companhias a revisar toda a cadeia de fornecedores — analisando o regime tributário de cada um (lucro real, presumido ou Simples Nacional) — porque o impacto varia enormemente conforme o enquadramento. No setor de serviços, por exemplo, ela cita aumentos que podem chegar a mais de 100% na carga tributária para empresas do lucro presumido, embora o efeito seja menor para as do lucro real.
Segundo a executiva, a regulamentação ainda em construção agrava a insegurança jurídica: "A gente ainda está em fase de regulamentação, ainda vamos ter mais regulamentações pela frente." Somam-se a isso interpretações divergentes entre empresas e provedores de sistemas — ela cita seis meses de trabalho apenas para alinhar o tratamento de notas de débito e crédito com o fornecedor de ERP da Tramontina — e a escassez de profissionais qualificados: "A maioria das grandes corporações está trabalhando com os mesmos números de colaboradores, e a gente tem que dar conta do dia a dia e da reforma tributária."
“Se você não tiver todos os campos da reforma tributária cem por cento certos, a nota não vai ser emitida e irá travar a operação da empresa.”
Ângela também alerta para o chamado saneamento de dados — cadastro de endereço, classificação fiscal (NCM) e enquadramento tributário corretos. Um erro simples pode significar perda de créditos ou, pior, autuação automática, já que o novo modelo de emissão de notas tem rastreabilidade instantânea junto ao fisco. "Eu emitir um documento fiscal, automaticamente já tem rastreabilidade. O governo já pode me autuar. Não precisa mais ter fiscal indo lá", descreve. Para ela, esse é hoje o maior desafio técnico já enfrentado na carreira — inclusive maior do que a implantação do SAP, que considerava, até então, o projeto mais complexo de sua trajetória.
Grandes players correm na frente; pequenos e médios ainda dormem
Questionada por Eden sobre o grau de preparo das empresas brasileiras, Ângela traça um cenário desigual. Companhias de grande porte — ela cita a participação em comitês com grandes varejistas, ao lado da PwC, e contatos com empresas como Marco Polo e Randon — já vêm se preparando com times dedicados e consultorias especializadas. O quadro muda nas pequenas e médias empresas, historicamente dependentes de escritórios contábeis terceirizados, que segundo ela demoraram a se mobilizar e tratar do tema junto a seus clientes.
Para Ângela, os escritórios contábeis também vão sentir o impacto da reforma — inclusive precisando investir em tecnologia e em profissionais especializados, movimento que já levou colegas a considerar a venda de suas carteiras. "O que eu acho que demorou foi o pessoal acordar, acreditar que isso ia acontecer", avalia, prevendo inclusive uma redução no número de escritórios contábeis nos próximos anos. Na visão dela, a reforma já é fato consumado do ponto de vista legal — foi aprovada via emenda constitucional — e o debate político pode alterar alíquotas ou prazos, mas não o rumo geral da transição.
O que fazer agora
Diante desse cenário, Ângela defende um roteiro objetivo para lideranças que ainda não colocaram o tema no radar: montar comitês multidisciplinares (não deixar a responsabilidade apenas com o setor fiscal), rodar diagnósticos e simulações de impacto por empresa, revisar contratos com fornecedores e clientes para incluir cláusulas de recolhimento de tributo, e envolver a alta liderança desde o início. "Eu tenho reuniões direto com o CFO, com o CEO, para eles entenderem", conta. Na Tramontina, ela lidera capacitações internas de três dias voltadas a todo o Brasil, reunindo fiscal, contábil, financeiro, suprimentos, comercial e TI — áreas que, segundo ela, precisam falar a mesma língua diante da reforma.
Glossário rápido
IBS: Imposto sobre Bens e Serviços, tributo de competência estadual e municipal criado pela reforma tributária, que substituirá ICMS e ISS.
CBS: Contribuição sobre Bens e Serviços, tributo federal da reforma que substituirá PIS e Cofins.
XML da nota fiscal: Arquivo eletrônico estruturado que acompanha cada nota fiscal e concentra os dados fiscais transmitidos ao governo.
NCM: Nomenclatura Comum do Mercosul: código que classifica fiscalmente cada produto e define sua tributação.
IRP: Sistema de emissão e gestão de documentos fiscais eletrônicos usado pelas empresas (ex.: ERPs de mercado).
Lucro real / presumido / Simples Nacional: Regimes de apuração de tributos federais das empresas, com regras e impactos distintos diante da reforma.
Split payment / tributação no destino: Lógica da reforma em que o imposto é recolhido considerando o local de consumo da mercadoria ou serviço, não mais o de origem.
Fé, protagonismo e a virada de chave da profissão contábil
Ao encerrar a conversa, Ângela resumiu o espírito que, segundo ela, deve guiar as empresas: manter a operação em pé, com compliance e governança, evitando autuações automáticas que a nova rastreabilidade fiscal torna praticamente inevitáveis para quem não se preparar. "Se der certo, foi todo mundo. Se der errado, foi o contador", brincou, defendendo que a responsabilidade pela reforma não pode recair só sobre a área fiscal.
Como mensagem final aos leitores, destacou a fé como parte de sua rotina de estudos e reforçou o momento de protagonismo que vive a categoria contábil: "Cada vez mais nós estamos sendo vistos como estratégicos dentro das organizações. A gente não tem só desafios, a gente tem oportunidades."
Sobre Ângela Daltoé
Formada em Ciências Contábeis, com MBA em Reforma Tributária e mestrado em andamento em Finanças, Governança e Gestão Financeira, Ângela Daltoé segue à frente do projeto de reforma tributária da Tramontina e da sala de aula na Universidade de Caxias do Sul — dividindo o tempo entre garantir que a operação da empresa não pare e formar a próxima geração de profissionais que vai lidar com o novo sistema tributário brasileiro.